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A gente só quer respeito

Eu sou usuária do transporte público desde sempre. Nunca tive carro, meu pais também nunca tiveram. Desde criança - quando era pequena demais pra ficar só em casa e minha mãe me levava pro trabalho -, me acostumei a tentar caber nos ônibus lotados e comemorar um lugar pra sentar nas raras vezes em que isso acontecia.

No começo, a gente pagava várias passagens por dia. Depois, eu já grande, veio a integração e o metrô começou a fazer parte das nossas rotinas. O tempo de locomoção não melhorou, passou de dois pra três transportes na ida e três na volta, mas os orçamentos apertados agradeceram por poder pagar menos.

Em épocas diferentes - estudando em lugares diversos, trabalhando em bairros diversos -, eu vivi o desconforto de boa parte das linhas de ônibus da cidade. Tem ônibus em que você, por mais que pegue todo dia, nunca vai passar da escada da porta e, mesmo que não caiba, na parada seguinte, vai subir mais gente pra dividir a escada com você.

Há mais de dois anos, trabalho no mesmo lugar, que fica a 11km da minha casa. A ida é feita com dois ônibus e um metrô. Pra voltar pelo mesmo caminho, eu teria que descer à noite em uma BR deserta, então me acostumei a pegar dois ônibus. Na parada perigosa e deserta perto do trabalho, param várias opções que me levavam pra um bairro mais perto de casa. Nesse bairro, paravam várias opções pra minha casa. Assim, sem tanto tempo de espera, passei a gastar duas passagens na volta, mas sabendo que chegaria em casa em trinta ou, se algo desse errado, quarenta minutos, sentada, como deve ser a volta pra casa de quem trabalhou o dia todo.

Então, agora, o trânsito da cidade mudou. Esses diversos ônibus que iam do centro à minha casa deixaram de existir e foram substituídos por circulares. Poucos e pra muita gente. Lentos e ineficientes, os circulares levam todo mundo a outro terminal chamado Tancredo Neves, onde, aí sim, você pega um ônibus pra casa. A alternativa aos circulares, pra mim, é pegar um ônibus, descer, pegar um metrô, descer, pegar outro metrô, descer e, finalmente pegar um ônibus pra minha casa, que costuma demorar pelo menos trinta minutos, já que o número de veículos da linha foi cortado.


Assim, dos 30 ou 40 minutos que gastava pra chegar em casa, passei a levar entre uma hora e quarenta e duas horas. Pra percorrer 11 quilômetros.

Os ônibus saíram das ruas pra dar lugar aos carros e há quem tenha coragem de apresentar isso à população como plano de mobilidade. Meu exemplo é só um, que eu posso falar com propriedade por viver todo dia, mas, acredite, isso é a rotina de milhares de pessoas. Ir trabalhar e voltar pra casa nas piores condições todos os dias.

Em uma cidade onde o custo de vida é alto, as pessoas ganham pouco e, como no resto do país, têm um mínimo acesso a serviços públicos de qualidade, a gota d'água é ser tratado como lixo todo dia por não ter mais um carro pra botar na rua e engarrafar o trânsito. Por isso, não pensem que é por dez ou vinte centavos, não pensem que é só pelo preço, é pela falta de qualidade que molesta a gente todo dia. O mote é o transporte, mas podia ser segurança, moradia, educação, saúde. Hoje, na verdade, a gente tá protestando até pelo direito de protestar em plena democracia.


Por isso, vou pra rua amanhã, a partir das 16 horas, no Derby. Porque quando te roubam a cidadania diariamente, embora continuem te cobrando por ela, você tem ir em busca. E sua voz, felizmente, é difícil de roubar hoje em dia.



Esse vídeo é da Folha de São Paulo, que chamou manifestantes de vândalos, defendeu a polícia violenta e no dia seguinte voltou atrás, quando viu a mesma polícia ferir doze jornalistas em serviço. O vídeo é bom, deve ter sido o tempero do arrependimento.

As fotos do post são do O Que Não Sai na TV.


15 comentários

  1. Tem que ir às ruas mesmo! Por tudo! Aqui onde moro também houve a mudança por esses circulares, o que piorou muito a situação do usuário. Às vezes você está parado no ponto e vê um ônibus indo na direção oposta, muitos e muitos minutos [hora] depois esse mesmo ônibus passa no ponto em que você está.
    Também houve aumento absurdo do IPTU. Aqui em casa de mais de 100% [no total de R$3.000,00], mas já vi casos de mais de 3000% de aumento. E a gente tem que pagar o imposto, mas além do imposto também tem que pagar convênio médico, convênio dentário e escola particular porque esses serviços são praticamente impossíveis de se conseguir na rede pública. E a prefeitura da cidade ainda faz piadinha: colocaram um outdoor imenso em uma via que fica à beira de um córrego, que na verdade é um esgoto a céu aberto, escrito "IPTU: o que você paga você recebe de volta". E justo essa via fica TOTALMENTE alagada ao sinal de alguma chuva mais forte, fazendo os ônibus que passam por ela demorarem uma hora e meia a mais do que os 5 minutos habituais.
    Além de vários outros muitos exemplos...
    Amanhã também irei ao protesto agendado aqui em Guarulhos, porque realmente não são "só 0,20 centavos".

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  2. Achei lindo o seu post e vou replicá-lo no meu blog, ok?!

    Abraço e a luta continua!

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  3. adoreiii
    pude ver de perto essa senhorinha ..

    foi lindo..

    bjos
    kammy
    Comer, Blogar, Amar

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  4. pois eh... tá na hora de ir pras ruas... não é por R$0,20 e sim por todo o desrespeito que passamos a cada dia, seja no transporte, na educação, na saúde...
    é uma pena neste momento eu não poder sair às ruas junto, porque estou com barrigão já, daqui a pouco o neném nasce... mas o q eu posso fazer eu to fazendo...
    não podemos recuar agora!
    bjos :)

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  5. Muito bom seu texto!

    Beijos
    www.adeusobesidade.com

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  6. Desculpa, mas em que bairro vc mora? Será que somos vizinhas?

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    1. me manda um email ou uma mensagem na página do blog. :)
      é que tenho medo da gente ficar aqui comentando sobre nossas casas, algum maníaco entrar aqui e invadir nossos lares. meio paranóico, mas também não custa prevenir, né? :*

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  7. SIMPLESMENTE SENSACIONAL!!!

    Dani,vc poderia informar o nome do blog citado no post SOBRE GOSTAR DE BLOGS ?
    Super beijo. Parabéns pela cabeça que tens e por ser tão pé no chão.

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    1. tanta gente pedindo, que vou fazer um post sobre ele. :)
      muito obrigada, viu? <3

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  8. Rafaela Ramos22/06/13 00:32

    Fico emocianada em ver todo esse movimento pelos nossos direitos, em ver o vídeo e em ler seu texto. Como bem foi dito "não pensem que é só pelo preço", é pelo direito de viver com dignidade!

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  9. Você lê os comentários???

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    1. leio sim. vão todos pro meu email. meu sonho é conseguir responder todos, o que exige tempo e, principalmente, organização do tempo, que é uma coisa em que eu sou bem ruim. =/

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  10. O que mais me tocou aqui foi essa mulher idosa de 101 anos *-*

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  11. Sou carioca e passo pela mesma situação,com a diferença que só tenho uma opção de ônibus pra ir da minha casa pro trabalho,e tenho que pegar mais um pra chegar até ele,na volta,idem....Parece que o governo te pressiona a comprar um carro cheio de impostos embutidos,fora os impostos que vc tem que pagar pelo resto da vida....Isso tá errado,é injusto.....por isso,apóio todo protesto pacífico que for rolar!Façamos nossa parte!

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